segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Sombra do Vento

Na entrada da biblioteca da minha escola, sempre teve uma frase presa na parede; "quem lê, viaja por vários lugares", não lembro se ela era escrita desta forma, no entanto esta era a mensagem transmitida. De fato, podemos ir à Cabul dos talibãs, de Khaled Hosseini, a Bahia de Jorge Amado, à velha América Latina de Galeano, como à França revolucionária de Victor Hugo. Em janeiro e fevereiro, aproveitei minhas merecidas férias para me dedicar a ler mais, pois não pegava um livro que não fosse para fins acadêmicos ou para o vestibular, já fazia alguns meses.

Em janeiro completou um ano que havia visto aquele livro exposto em uma loja em Santa Maria. A Sombra do Vento. O nome sempre me pareceu demasiado intrigante, pois apenas nele já há uma aura de mistério envolvente. A sorte, certas ocasiões bate na minha porta e eu atendo. Cheguei à biblioteca municipal de Cachoeira do Sul, e lá estava ele, chamativo, disponível e consciente na prateleira bem da frente. Eu já estava carregando muitas coisas, e desejava voltar a pé para casa, mas não houve resistência da minha parte, eu tive que levá-lo. 

Comecei a leitura naquele mesmo dia, e fui apresentada logo de inicio à Espanha do fim da primeira metade do século XX, mais precisamente à Barcelona de 1945, o mundo do personagem principal; Daniel Sempere. 

Resumido até antes da página 100.

Ele é um menino de dez anos que acompanha seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos, um lugar onde livros são guardados (ou escondidos). Lá entre um verdadeiro labirinto de livros, ele escolhe para si um encadernado sob a cor vinho, intitulado A Sombra do Vento. Daniel devora a história e fica interessado em obter outros livros do autor chamado Julián Carax. Entretanto, ao conseguir algumas informações sobre ele, para seu assombro, descobre que não era um autor conhecido, e que o seu exemplar de a Sombra do Vento pode ser o último. Logo depois está uma das melhores partes do livro, quando Daniel está na varanda e vê um estranho na rua, que o encara por alguns momentos e então com o badalar dos sinos, lhe acena com a cabeça e vai embora. Em meio a isso dois novos personagens são inseridos na história; don Gustavo Barceló, um intelectual inspirado nos dândis do século XIX, que assim como o pai de Daniel, era dono de uma livraria, e a sobrinha dele, Clara, uma moça cega de grande beleza, para quem Daniel leria a Sombra do Vento. 


Durante os seis anos seguintes, ele se aproxima muito de Clara, e todos começam a reprovar tal amizade, por ela ser dez anos mais velha. No dia do décimo sexto aniversário ela não comparece, e ele saí desolado a caminhar pelas ruas, quando chega ao monumento Cristovão Colombo, um homem de negro saí das sombras, sendo reconhecido no mesmo momento. Trecho fantástico. O homem então lhe cumprimenta pelo nome, e diz saber muito a respeito dele, então lhe propõe comprar a Sombra do Vento, Daniel nega dizendo que não tem o livro, e lhe pergunta por que o quer, o estranho responde que pretende queimá-lo. E em um dado momento acende um cigarro, ali seu rosto é revelado, ele não tinha pálpebras, nariz ou lábios. A alma do Daniel gelou e a minha também. Então se despede, dizendo que voltariam a se encontrar, e parte para a escuridão. O rapaz lembra que uma hora o homem mencionou Clara, pois sabia que ela havia estado com o livro, e levanta-se para ir até a casa de Barceló para avisa-la. Lá, ele entra sorrateiramente, pega o livro, mas a vê na cama com o professor de música, este o expulsa, não sem antes lhe dar um murro. Na rua, em meio à chuva, ele é auxiliado por um mendigo, que nada mais é que meu personagem favorito, Fermín Romero de Torres. Esperando a dor passar, Daniel trava uma conversa com o mendigo, onde é mais um ouvinte. Fermín se apresenta como um ex espião que espera ansiosamente que caia o regime de Franco, para que possa recuperar sua reputação perdida. E então começa a tagarelar. “Fermín Romero de Torres, ou fosse qual fosse o seu verdadeiro nome, ansiava quase tanto pela conversa anódina como por um banho quente, um prato de lentilhas com chouriço e uma muda de roupa lavada.” Quando a chuva diminuiu, o rapaz vai embora e resolve fazer uma última coisa antes de voltar para casa. Ele se dirige ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Isaac, o guardião o recebe, observando-o Daniel lhe pergunta se sabe algo de Carax, Isaac lhe responde que sim, e lhe conta a respeito. Conta que conheceu o editor dos livros Toni Cabestany, este era seu amigo, e um dia lhe chegou dizendo que havia comprado os direitos de um autor barcelonês que vivia em Paris, um jovem que tocava piano em um bordel e escrevia durante o dia num sótão miserável. Ele usava o sobrenome da mãe, o pai era um chapeleiro. As vendas na França se revelaram um fracasso, mas Cabestany insistiu, e os publicou na Espanha, onde também não houve sucesso. Mas, em 1936 adoeceu e o filho que nada entendia do negócio assume. Um tempo depois Cabestany falece. Um dia, aparece na editora um homem chamado Aubert querendo comprar toda a coleção de Carax a fim de queimá-la, nesse momento Daniel pergunta a Isaac se seria Laín Coubert, e ele concorda, perguntando como sabe. O outro responde que em A Sombra do Vento, este é o nome que o diabo emprega. Isaac continua o relato, dizendo que o jovem Cabestany quis mais dinheiro e Coubert retira a proposta, dias depois, o armazém da editora Cabestany pegou fogo pouco depois da meia noite. Mas a secretária, que tinha conhecimento da conversa, pegou antes do incêndio um exemplar de cada título. Seu nome era Nuria e era ela que mantinha contato com Carax através de correspondências. Daniel pergunta se a conhece, Isaac abre um sorriso, dizendo que ela era nada menos que sua filha. O rapaz diz que pelas informações que havia conseguido, Carax voltou a Barcelona e que morreu logo depois, mas não sabia nada sobre a família. Pergunta se poderia falar com Nuria a respeito e sobre os livros que ela pegou. Isaac afirma que ela poderia e que quanto aos livros, eles estavam ali, no Cemitério. Daniel esconde seu exemplar com ajuda do guardião. Semanas depois está com seu pai na livraria, quando este afirma que precisam de alguém para ajudar nas encomendas, “alguém muito especial, meio detetive meio poeta, que leve barato e não se assuste com as missões impossíveis.” Imediatamente ele lembra-se do meu querido personagem Fermín Romero de Torres, e parte para buscá-lo. Envergonhado por seu estado, Fermín fica receoso por entrar na casa dos Sempere, mas cede, depois de um banho trabalhoso, ouve a proposta de emprego e aceita. Trinta dias depois de emergir daquela banheira, o ex mendigo estava irreconhecível. Porém, (...) onde realmente Fermín Romero de Torres nos tinha deixado boquiabertos era no campo de batalha. Os seus instintos de detetive (...) eram de uma precisão cirúrgica. Nas suas mãos, as encomendas mais estranhas solucionavam-se em dias, quando não em horas. Não havia título que não conhecesse. Certa noite, a dona da pensão onde está Fermín liga para os Sempere avisando que ele está trancado no quarto gritando e esmurrando paredes. Depois de resolver a confusão, o médico analisa um Fermín já dormido e diz que o pobre foi torturado no passado e traumas surgiram. Este, mais tarde explica que não lembra de nada exceto de acordar numa cela. Uma noite no cinema, Daniel vê o estranho de negro novamente, Coubert olhava-o fixamente, com seus olhos sem pálpebras, Daniel desvia o olhar e quando o retorna, o estranho não estava mais lá. Mas foi o suficiente para ter certeza que Coubert não esqueceu o que havia dito. Com o auxilio de Fermin na livraria, Daniel teve mais tempo livre, aproveitando para passar o tempo com seu amigo e colega Tomas Aguilar, um rapaz reservado, mas que as pessoas temiam devido ao seu aspecto sério e ameaçador. Mas era muito amável apesar disso, e tinha uma irmã, Beatriz, com quem Daniel partilhava uma franca hostilidade. Numa tarde, estava na parte de trás da livraria quando ouviu a campanhia da porta tocar ao abrir-se, estranhou pois a havia o aviso de fechado na frente, mas achando que fosse Fermín voltando de um passeio, não saiu do lugar. Quando o chamou, não obteve resposta, mas sim um riso abafado. Logo ouviu passos se afastarem e a campanhia tocou novamente. Ao chegar lá, trancou a porta, e quando se voltou para o balcão, viu que o invasor havia deixado uma fotografia. Estava bastante desgastada, mas estavam ali, dois jovens sorrindo para a câmera. Ele não parecia ter mais de dezassete ou dezoito anos, com o cabelo claro e traços aristocráticos, frágeis. Ela afigurava-se talvez um pouco mais nova do que ele, um ou dois anos, no máximo. Tinha a tez pálida e um rosto cinzelado, cingido por um cabelo negro, curto, que acentuava um olhar enfeitiçado, envenenado de alegria. Ele passava-lhe o braço pela cintura e ela parecia sussurrar qualquer coisa, trocista. (...) Atrás deles podia ver-se a uma loja, repleta de chapéus passados de moda. Concentrei-me no par. A roupa parecia indicar que a imagem tinha pelo menos vinte e cinco ou trinta anos. Era uma imagem de luz e de esperança que prometia coisas que só existem nos olhares de pouca idade. As chamas tinham devorado quase todo o contorno da fotografia, mas ainda se podia adivinhar um rosto severo atrás daquele balcão vetusto, uma silhueta espectral a insinuar-se por trás das letras gravadas no vidro. Filhos de António Fortuny Casa fundada em 1888. Na noite em que tinha regressado ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Isaac contara-me que Carax usava o apelido da mãe, e não o do pai: Fortuny. O pai de Carax tinha uma chapelaria na Ronda de San António. Observei de novo o retrato daquele par e tive a certeza de que aquele rapaz era Julián Carax, a sorrir-me do passado, incapaz de ver as chamas que se cerravam sobre ele.


Livro fantástico e comovente que me prendeu do início ao fim. Me arrepiei em vários momentos, fiquei triste por determinados personagens e me encantei por outros. Ambientado na Barcelona franquista da primeira metade do século XX, a obra homenageia o poder dos livros na vida das pessoas e mistura diversos gêneros de leitura. Um momento está eletrizante, logo depois entra um tirada engraçada (geralmente de Fermín) e de repente, pode levar à lágrimas silenciosas. Enfim, me apaixonei e recomendo como apenas o melhor livro que li.


Um trecho que ainda me arrepia. A introdução de um personagem que marca esse história:


Ao voltar ao salão, apaguei a luz e senteime no velho cadeirão do meu pai. O sopor da rua adejava nas cortinas. Não tinha sono, nem vontade de o tentar. Aproximeime da varanda e assomei até ver o relume vaporoso que os candeeiros da Puerta del Angel vertiam. A figura Recortava-se num retalho de sombra deitado sobre o empedrado da rua, inerte. O ténue pestanejar âmbar da brasa de um cigarro reflectiase nos seus olhos. Vestia de escuro, uma mão enfiada no bolso do casaco, a outra a acompanhar o charuto que tecia uma teia de aranha de fumo azul em torno do seu perfil. Observavame em silêncio, com o rosto velado a contraluz da iluminação da rua. Permaneceu ali pelo espaço de quase um minuto a fumar com abandono, o olhar fixo no meu. Depois, ao ouviremse as badaladas da meianoite na catedral, a figura fez um leve aceno com a cabeça, um cumprimento por detrás do qual depreendi um sorriso que não podia ver. Quis corresponder, mas tinha ficado paralisado. A figura voltouse e via afastarse coxeando ligeiramente. Noutra noite qualquer talvez mal tivesse reparado na presença daquele estranho, mas assim que o perdi de vista na neblina senti um suor frio na fronte e faltoume a respiração. Tinha lido uma descrição idêntica daquela cena em A Sombra do Vento. No relato, o protagonista assomava todas as noites à varanda à meianoite e descobria que um estranho o observava das sombras, fumando com abandono. O seu rosto ficava sempre velado na escuridão e só os seus olhos se insinuavam na noite, ardendo como brasas. O estranho permanecia ali, com a mão direita enfiada no bolso de um casaco preto, para depois se afastar, coxeando. Na cena que eu acabava de presenciar, aquele estranho poderia ser qualquer noctívago, uma figura sem rosto nem identidade. No romance de Carax, aquele estranho era o diabo.



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