quarta-feira, 31 de agosto de 2011

“L’essentiel est invisible pour les yeux.”

Essa citação é do escritor Francês Antoine de Saint-Exupéry. O essencial é invisível aos olhos. É uma idéia bela, verdadeira, mas... Será que realmente nós pensamos assim? Estamos tão ocupados em torno de uma rotina, que deixamos de ver o que de fato é importante. Vemos as paisagens, os hábitos, vemos o que nos interessa. Entretanto ficamos sem se ater aos detalhes que seriam tão imprescindíveis na nossa existência. Procure prestar mais atenção naquela pessoa que passa por você quase todos os dias, observe, dialogue, não julgue ou analise ninguém por conceitos que você estabeleceu sem nenhum fundamento. Analise bem até aquela com quem você divide as contas. Será que conhecem a totalidade do outro? Ou seria mais um detalhe a que você não se deu conta do quão importante seria. Remodele seus conceitos, não os preestabeleça. E note a diferença que isso pode fazer.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Encontro

A mulher dirigia apressada. Era a hora do rush, e o trânsito estava caótico como sempre. Sua fisionomia demonstrava a agitação que lhe ia ao íntimo. Mas nenhuma dificuldade, por pior que fosse, a faria desistir.  Era uma questão de honra chegar a tempo. Tim lhe dera poucas opções de horário, mas ela não iria abrir mão desse encontro por nada nesse mundo. Aliás, esse pensamento nem lhe passava pela cabeça. Estava decidida a se entregar a ele, e ver no que ia dar.
Estacionou o carro de qualquer maneira. O celular manifestou-se num tilintar conhecido: era Alfredo. Ela ignorou a chamada do marido, retocou o batom, pegou a bolsa e entrou afogueada no prédio. Foi recebida com sorrisos de cumplicidade pelos funcionários da recepção. Ela evitou olhá-los, e, equilibrando-se nos saltos dos sapatos, deslizou pelas lajotas coloridas, sob o ruído dos  próprios passos, que  ecoavam ao longo do corredor. 

Afinal, a escada. Os degraus de madeira, apesar de gastos, ainda tinham um certo brilho que valorizava o conjunto. Ela os escalou, um a um, como se estivesse desfilando numa passarela: o nariz empinado, a bunda rija, encolhendo a barriga e forçando os peitos para frente. Evitava utilizar o corrimão de madeira polida pelos anos de uso, que, provavelmente, estaria contaminado por vírus e bactérias. Ela tinha fobia por doenças infecto-contagiosas, mas esquecera disso, empolgada com a aventura que vislumbrava entre aquelas paredes. 

Fora Leila, sua colega de escritório, que provocara sua decisão a respeito. O seu ponto fraco era esse: ser provocada. Adorava um desafio. Isso era inato em sua personalidade. Uma vez que decidisse alguma coisa, nunca voltava atrás.

Agora, contudo, sentia-se vulnerável naquele lugar, especialmente sobre aquela escada. Malditos degraus, pensava, olhando as frestas entre os desvãos, por onde olhos famintos acompanhavam seus passos. Ela adivinhava as discussões sobre a cor de seu lingerie, sobre a firmeza de suas coxas e o tamanho de seus glúteos.

Isso é nojento, pensou, enquanto atingia o último patamar e ouvia risos abafados dos rapazes que se espremiam lá embaixo, lutando pelo melhor ângulo de visão. Nos nichos ao longo da parede, garrafões cheios de água, forrados com seixos, ostentavam ramos de uma espécie de vime, fartos de raízes e folhas miúdas.  Era estranha a decoração daquele ambiente. Muito exótica para o seu gosto. Mas Tim adorava coisas incomuns, afinal, ele mesmo era um tipo que poderia ser considerado único.

Enfim, chegou à  sala onde ele estava. A porta fechada. A voz de Frank Sinatra fugia pelas fendas da parede, fluída e convidativa, envolvida em perfumes.  Respirou fundo e com os nós dos dedos, deu algumas pancadas leves e rápidas na madeira. Enquanto esperava que a porta se abrisse, olhou para a escada e murmurou para si mesma:

– Só Tim me faria enfrentar essa escada, e aquela gente lá embaixo. Parecem abutres, lutando pelas sobras de algum festim macabro.

Finalmente ele abriu a porta, saudando-a com os três costumeiros beijinhos estalados nas faces.  Ela entrou com toda a fleuma, sentou na cadeira fechando os olhos. Não precisava falar. Tim sabia o que ela queria. 

Então, deixou-se ficar, enquanto ele tingia as suas madeixas.

Eni Allgayer

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Carrego seu coração



Eu Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Eu nunca estou sem ele
Onde quer que eu vá, você vai, minha querida;
e o que quer que eu faça sozinho, eu faço por você.

Eu não temo o destino
Porque você é o meu destino, minha doce.
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
Porque você é meu mundo, minha verdade.
Este é o maior dos segredos que ninguém sabe.

Você é a raiz da raiz, e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;
que cresce mais alta do que a alma pode esperar
ou a mente pode esconder.
Este é o milagre que distancia as estrelas

Eu Carrego seu coração
carrego no meu coração.


E. E. Cummings

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Unwritten


I break tradition, sometimes my tries, are outside the lines
We've been conditioned to not make mistakes, but I can't live that way
Let the sun illuminate the words that you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Chapeuzinho Vermelho

"Era uma vez uma rapariga chamada Chapeuzinho Vermelho, que vivia com a mãe perto de um grande bosque. Um dia a mãe mandou-a levar um cesto de fruta fresca e água mineral a casa da avó - não porque tal fosse trabalho de mulher, claro, mas porque se tratava de um ato generoso que contribuía para fomentar um sentimento de comunidade. Aliás, a avó da rapariga não estava doente, encontrando-se, pelo contrário, de perfeita saúde física e mental, inteiramente capaz de cuidar de si, como adulta madura que era.

Vai daí, Chapeuzinho Vermelho fez-se ao caminho pelo meio do bosque com o cesto enfiado no braço. Muitos achavam aquele bosque um lugar perigoso e de mau presságio, pelo que nunca lá punham os pés. Chapeuzinho Vermelho tinha, porém, tal confiança na sua sexualidade a desabrochar que não se deixava intimidar por tão óbvia imagética freudiana.

No caminho para casa da avozinha, Chapeuzinho Vermelho encontrou um lobo, que lhe perguntou o que levava no cesto e a quem respondeu:

- São uns alimentos saudáveis para a minha avó, que é evidentemente capaz de tomar conta de si própria, como adulta madura que é.

- Sabes, minha querida, não é nada seguro para uma menina como tu andar sozinha pelo meio destes bosques! - retorquiu o lobo.

- Considero extremamente ofensiva a tua observação sexista - disse o Chapeuzinho Vermelho - , mas vou ignorá-la tendo em conta a tua tradicional condição de pária da sociedade, cujo trauma te levou a criar uma mundividência própria, perfeitamente válida. E agora, se me dás licença, tenho de prosseguir o meu caminho.

Chapeuzinho Vermelho continuou a andar, sempre pelo carreiro principal.No entanto, o lobo, cuja condição de excluído da sociedade o isentara da obediência escravizante ao raciocínio linear do tipo ocidental, conhecia um atalho para a casa da avozinha. Irrompeu pela casa dentro e comeu a senhora, procedimento inteiramento adequado a um carnívoro, como era o seu caso. A seguir, liberto das noções rígidas e tradicionalistas quanto ao que era masculino ou feminino, vestiu a camisa de dormir da avozinha e enfiou-se na sua cama.

Chapeuzinho Vermelho entrou na cabana e exclamou:

- Avozinha, trouxe-lhe umas coisinhas para comer, sem gordura nem sal, em homenagem ao seu papel de matriarca sábia e criadora.

Da cama, o lobo respondeu, em voz sumida:

- Chega-te cá, netinha, para eu te ver.

Chapeuzinho Vermelho acrescentou:

- Ah, é verdade! Já me esquecia de que a avozinha é opticamente tão limitada como um morcego. Mas avozinha, que grandes olhos tem!

- Já muito viram e muito perdoaram!

- E que grande nariz tem (em termos relativos, claro, e, de qualquer modo, atraente, à sua maneira).

- Já muito cheirou e muito perdoou, minha querida!

- E que grandes dentes tem!

Aí o lobo disse:

- Sinto-me muito feliz por ser quem sou. - E saltou para fora da cama, filando-a com as suas garras, pronto a devorá-la.

Chapeuzinho Vermelho gritou, não assustada coma aparente tendência do lobo para o travestismo, mas horrorizada com a invasão do seu espaço pessoal.

Os seus gritos foram ouvidos por um lenhador (ou técnoco de combustível lenhoso, como preferia que lhe chamassem) que passava ali perto. Quando irrompeu pela cabana, logo se apecebeu da confusão e tentou intervir. Mal ergueu no ar o seu machado, Chapeuzinho Vermelho e o lobo pararam de brigar.

- Que pensa o cavalheiro que está a fazer? - perguntou Chapeuzinho Vermelho. O lenhador arregalou os olhos de espanto e fez menção de responder, mas nem uma palavra lhe ocorreu. - Entrar aqui como um Homem de Neanderthal , deixando que a sua arma pense por si !- exclamou ela. - Machista! Como se atreve a presumir que mulheres e lobos sejam incapazes de resolver os seus problemas sem a ajuda de um homem?

Ao ouvir o discurso arrebatado de Chapeuzinho Vermelho, a avozinha saltou de dentro da boca do lobo e, agarrando no machado do lenhador, cortou-lhe a cabeça. Passado o mau bocado, Chapeuzinho Vermelho, a avozinha e o lobo sentiram-se unidos por uma certa comunhão de propósitos. Decidiram, por isso fundar uma família alternativa baseada no respeito mútuo e na cooperação e viveram juntos e felizes no bosque para sempre."
por James Finn Garner

sábado, 13 de agosto de 2011

Continuidade


Você nota que está amadurecendo quando os sonhos começam a mudar repentinamente. Durante muitos anos quis ser uma veterinária que assistiria todos os animais que pudesse. Essa vontade perdeu-se no tempo e vive apenas nas lembranças. Espere, pensei uma coisa agora; e acredito que não coloquei de modo correto meu pensamento, amadurecer não começa de um momento para outro, ele se repete de forma contínua, é o estágio chamado vida. Isso nos acompanha todos os dias, é apenas a velha questão de saber observar, para perceber que vida também é sinônimo de mudança.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Perdoando os inimigos

O mestre reuniu-se com seu discípulo preferido, e perguntou como ia seu progresso espiritual. O discípulo respondeu que estava conseguindo dedicar a Deus todos os momentos de seu dia.
-Então, falta apenas perdoar os seus inimigos – disse o mestre.
O discípulo virou-se, chocado:
-Mas eu não preciso! “Não tenho raiva de meus inimigos!”.
-Você acha que Deus tem raiva de você?
-Claro que não! – respondeu o discípulo.
-E mesmo assim você pede Seu perdão, não é verdade? Faça o mesmo com seus inimigos, mesmo que não sinta ódio por eles. Quem perdoa, está lavando e perfumando o próprio coração.

Paulo Coelho

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Marilyn







               Eu tenho fantasias demais para ser uma dona de casa.  Acredito que eu sou uma fantasia.


Marilyn Monroe

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Incompreensível

Ela se sentia mendiga aquele dia. Porém sua carência não se fixava em bens materiais, mas na falta de lembranças. Nunca soube o motivo delas lhe abandonarem, apenas queria que retornassem. Os sonhos não eram o suficiente, precisava daquela antiga realidade, dos velhos desejos. Tudo se resumia na saudade das lembranças que inconscientemente desapareceram. Não sabia qual rumo tomar, mas sabia que para um iria se direcionar. Iria viver, com elas, ou não.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Durma bem.





Não deite com mágoas no coração.
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz.
E comece com você mesmo!


Martha Medeiros

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sermão da Montanha para os educadores

A analogia é pertinente. Alunos perdidos ou que não querem aprender nada, pessoas que nunca colocaram o pé em uma sala de aula querem “ensinar o padre a rezar missa”, governo exigindo aprovações indevidas, pais insatisfeitos, aborrecidos, furiosos pelos seus pequenos ‘gênios’ não tirarem a média. Isso faz parte do dia a dia do professor! E reflete nas escolhas dos jovens, basta observar o crescente desinteresse pela profissão. Penso em como vamos encarar o problema, quando os educadores começarem a minguar. Enfim, ai está uma versão adaptada do sermão da montanha à realidade do professor.

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.
Tomando a palavra, disse-lhes:
- "Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles..."
Pedro o interrompeu:
- Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André perguntou:
- É pra copiar no caderno?
Filipe lamentou-se:
- Esqueci meu papiro!
Bartolomeu quis saber:
- Vai cair na prova?
João levantou a mão:
- Posso ir ao banheiro?
Judas Iscariotes resmungou:
- O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou:
- Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?
Tiago Maior indagou:
- Vai valer nota?
Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.
Simão Zelote gritou, nervoso:
- Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
Mateus queixou-se:
- Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!
Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
- Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
Caifás emendou:
- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
- Quero ver as avaliações da Provinha Brasil, da Prova Brasil e demais testes e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor efetivo...
Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu. Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar pra Nazaré e montar uma padaria...
Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor... Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou... como nós sempre continuamos. ..
Seja feita a sua vontade
Amém 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Somos nossa coragem

A forma como enfrentamos nossos receios é aquilo que realmente, um dia definirá que seremos. A contrução de personalidades, sempre foi e, sempre será assim.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Eu creio em mim mesmo

Creio nos que trabalham comigo, creio nos meus amigos e creio na minha família. Creio que Deus me emprestará tudo que necessito para triunfar, contanto que eu me esforce para alcançar com meios lícitos e honestos. Creio nas orações e nunca fecharei meus olhos para dormir, sem pedir antes a devida orientação a fim de ser paciente com os outros e tolerante com os que não acreditam no que eu acredito. Creio que o triunfo é resultado de esforço inteligente, que não depende da sorte, da magia, de amigos, companheiros duvidosos ou de meu chefe. Creio que tirarei da vida exatamente o que nela colocar. Serei cauteloso quando tratar os outros, como quero que eles sejam comigo. Não caluniarei aqueles que não gosto. Não diminuirei meu trabalho por ver que os outros o fazem. Prestarei o melhor serviço de que sou capaz, porque jurei a mim mesmo triunfar na vida, e sei que o triunfo é sempre resultado do esforço consciente e eficaz. Finalmente, perdoarei os que me ofendem, porque compreendo que às vezes ofendo os outros e necessito de perdão.
Mahatma Gandhi