sábado, 10 de setembro de 2011

Bye bye era uma vez...

Em um momento qualquer, navegando pela internet descobri um anúncio feito pela Disney no fim do ano passado: por um bom tempo eles não pretendem fazer um filme que envolva princesas. Isso poderia decorrer devido ao fraco desempenho do meigo A Princesa e o Sapo. A animação Enrolados que foi lançado em dezembro, apresenta uma das mais famosas histórias clássicas; a de Rapunzel, mas unida a um humor mais recente da Disney, e essa receita tem alcançado um sucesso bastante relevante.

Entretanto, parece que as coisas não irão mudar; não veremos mais jovens princesas tão cedo. Agora a pergunta é 'por que as jovens com coroas (ou quase) não fazem mais o mesmo sucesso obtido a não muito tempo atrás?' A resposta é simples, o público alvo dessas animações teve os interesses muito modificados nos últimos anos. Meninas, mocinhas, elas não querem mais serem as moças indefesas atrás um cara montado num cavalo branco. Essa nova geração não se identifica mais com elas, mas com atrizes de sucesso, cantoras. Elas querem independência, construir uma carreira. A felicidade feminina sofreu mudanças seculares em poucos anos. Se você duvida pergunte a qualquer menina de doze anos quem ela prefere ser: Cinderela ou Lady Gaga?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Talvez eu caia amanhã, tropece, me rale toda, me machuque.
Sei que tenho muitos desejos. Mas irei conseguir, alcançarei meus sonhos. Não irei desistir de mais nada, empunharei a mim mesma e vou caminhar até o fim, custe o que for necessário. A minha fé não será mais abalada. Ela que acredita que as coisas vão dar certo, essa fé em mim mesma. 

 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Do papiro ao hiperlivro

 “Com uma das mãos pendendo ao lado do corpo e a outra apoiando a cabeça, o jovem Aristóteles lê languidamente um pergaminho desdobrado no seu colo, sentado numa cadeira almofadada, com os pés confortavelmente cruzados.”

Assim começa Uma História da Leitura, de Alberto Manguel, cujo primeiro capítulo se chama A Última Página, título bastante pertinente nestes tempos em que se discute o fim do livro de papel, supostamente substituído pelo suporte digital. O jovem Aristóteles que Manguel descreve foi esculpido por Degeorge no século 19 assim, lendo um rolo e não uma tabuleta, porque, naquela época o primeiro já era mais utilizado do que o segundo. Durante séculos, rolos e códices conviveram, próprios a cada tipo de texto e escrita, conformes à portabilidade e mesmo ao tipo de material disponível – madeira, argila, cera, folhas de papiro, couro. Como nos conta Manguel, “desde os primórdios, os leitores exigiram livros em formatos adaptados ao uso que pretendiam lhes dar”. Assim, séculos depois de Aristóteles, romances proibidos eram pequenos e feitos de material inferior, pois eram copiados clandestinamente e circulavam às escondidas.

Quando narra a predileção de Alexandre, o Grande, pela leitura, Manguel conta que o futuro conquistador, discípulo de Aristóteles, raramente deixava de portar um “livro”. Livro? Provavelmente Alexandre leu a Ilíada em 24 rolos de pergaminho, e também cartas e folhetos de papiros, tabuletas de madeira e cera e, talvez, códices. O códice, que já foi manuscrito, de pergaminho (havia exemplares de papiro também), de papel de trapos e, enfim, transformado em livro impresso, tornou-se o suporte preferido, porque o leitor o elegeu para suas leituras, e, assim, por ser mais prático seu uso e também sua produção, hoje, cinco séculos depois, continuamos a ler livros.
Apesar de eleito como o portador do conhecimento e da literatura, o livro não é o melhor suporte, por exemplo, para as notícias, para os documentos que precisam de registro ou os processos de um tribunal – conteúdos que têm sido digitalizados. Já as cartas, transportadas pelos correios em todo o mundo, trocaram mulas, trens, pombas, navios, carros e aviões pela internet – e sobreviverão em seu formato clássico enquanto existirem papel e caneta, e escritores e leitores de cartas, e agências de correio. Já as tabuletas, onde se costumava trazer registrados o alfabeto, os números e o Pai Nosso, sobreviveram até meados do século 20, como suporte onde os estudantes faziam anotações e decoravam a tabuada. As pranchetas que os recenseadores utilizavam foram substituídas por tablets, e engenheiros, fiscais de trânsito, garçons, têm cada vez mais trabalhado com gadgets em mãos, substituindo os velhos bloquinhos em papel. Chamem de remediação, evolução, tragédia – o nome não altera o processo.

A humanidade civilizou-se justamente buscando tudo aquilo que fosse mais prático: mais rápido, mais portátil, mais poderoso, mais prazer. Mais: como a geração Z vê o livro digital. Em vez de carregar uma mochila repleta de volumes pesados de geografia, ciências, matemática, história, Machado de Assis, os estudantes vão carregar um levíssimo tablet – na Coreia, o projeto é substituir todos os livros didáticos em papel, definitivamente, até 2015. No Brasil, o país do futuro, há uma data marcada, o vindouro ano de 2014, em que o governo federal começará a comprar conteúdo digital.

A maioria dos leitores prefere o livro de papel, seja porque sequer conheça ou não disponha de recursos para adquirir um e-reader e uma conexão com a internet para comprar textos, seja porque não saiba hiperler, ou porque creia que o prazer de ler no livro – o toque, o cheiro, a “aura” – seja insubstituível: toda uma geração acostumada, apaixonada às vezes, por esses objetos mágicos, as estantes maravilhosas, as bibliotecas fantásticas. Borges, que tanto imaginou livros e bibliotecas infinitas, talvez não suportasse a ideia de um mundo digital. Não sabemos ao certo quanto tempo essa geração “analógica” vai perdurar, nem podemos afirmar o que acontecerá com o texto – com o conhecimento, a informação e o entretenimento – a partir da adoção dos suportes digitais de leitura, mas duas obviedades surgem a partir das experiências do passado: livro e hiperlivro vão conviver; vencerá o melhor: o melhor suporte para cada forma de texto e leitura.

Também é possível minimamente prever, como fez Kate Wilson na Jornada de Literatura de Passo Fundo, algumas implicações sobre o futuro da leitura: é provável que uma geração próxima não leia mais em livros. Para Alberto Manguel, a exposição editorial de Kate sobre o e-book Cinderela foi uma afronta àqueles que defendem a leitura, porque ela mostrava como, a partir do livro digital, ela se transmuta para outro tipo de interação – que Manguel considerou como “consumo”. Se Manguel exagerou na sua defesa conservadora do livro, como expõe em seu blog Affonso Romano de Sant’anna, testemunha da discussão, Kate Wilson exagerou em dizer que não importa o que as crianças leiam, desde que leiam.

A questão não é a ida do livro para o museu – fazer companhia a rolos e códices –, mas o fato de que esse texto que vemos surgir no suporte digital não é o mesmo do livro. O hiperlivro, portanto, é portador de um texto que se transforma a partir dele, como aconteceu na passagem do rolo para o códice e deste para o livro. Se não fosse assim, nem teríamos lido Cinderela ou Tigre, Tigre como o conhecemos, mas na forma de epopeias em versos alexandrinos! Chegamos até aqui lendo, e lendo inventamos todos esses gadgets, logo, vamos nos adaptar às novas possibilidades de leitura, como sempre fizemos.

Enquanto a escola mantiver o letramento nos moldes tradicionais – lineares, no livro –, assim aprenderemos a ler. Mas a leitura aquém dos muros da escola será outra, eleita por uma nova geração de leitores, os nativos digitais. Há quem não desgoste dessa partição. Haverá, também, um espaço de amoldamento: primeiro, os textos existentes são digitalizados, e lidos linearmente como estamos acostumados a fazer. Depois, com as possibilidades técnicas do suporte digital, chegaremos ao hiperlivro, cujo conteúdo – novo – será hiperlido: palavras, vídeos, sons, a interação com o leitor e com a rede. Certamente cabe a pergunta sobre a formação desse hiperleitor. Séculos atrás, a burguesia em ascensão criou as escolas para formar leitores de livros. Não deixemos a internet tomar conta do negócio!

Ana Cláudia Munari

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A peste

Dizem que quando os dois estavam chegando a Nova York, na amurada do navio, Freud virou-se para Jung e perguntou:

– Será que eles sabem que nós estamos trazendo a peste?

Não sei se a história, que li num texto do Stephen Greenblatt publicado recentemente na revista The New Yorker, é verdadeira. Nem sei se Freud e Jung estiveram juntos em Nova York algum dia. Mas o que Freud pretenderia dizer com “a peste” é fácil de entender. Era tudo que os dois estavam explorando em matéria de subconsciente, inconsciente coletivo, sexualidade precoce – enfim, a revolução no pensamento humano que na Europa já se alastrava, e era combatida, como uma epidemia. Os agentes alfandegários não teriam identificado o perigo que os dois recém-chegados representavam para as mentes da América, deixando-os passar para contagiá-las.

Todo desafio ao pensamento convencional e a crenças arraigadas é uma espécie de praga solapadora, uma ameaça à normalidade e à saúde públicas. Santo Agostinho dizia que a curiosidade era uma doença. Os que procuravam explicações para o universo e a vida além dos dogmas da Igreja ou da ciência tradicional eram portadores do vírus da discórdia, a serem espantados como se espanta qualquer praga, com barulho e fogo. As ideias de Freud e de Jung divergiram – Jung acabou derivando para um quase misticismo, literariamente mais rico mas menos consequente do que o que pensava Freud – mas as descobertas dos dois significaram uma reviravolta no auto-conceito da humanidade comparável ao que significou o heliocentrismo de Copérnico e as sacadas do Galileu. O homem não só não era o centro do universo conhecido como carregava dentro de si um universo desconhecido, que mal controlava. Agostinho tinha razão, a curiosidade debilitava o homem. A partir de Copérnico a curiosidade só levara o homem a ir desvendando, pouco a pouco, sua própria precariedade, cada vez mais longe de Deus.


Marx, outro pestilento, tinha proposto o determinismo histórico e a luta de classes como eventuais formadores do Novo Homem, livre da superstição religiosa e de outras tiranias. Suas ideias, e a reação às suas ideias, convulsionaram o mundo. Esta peste se disseminou com violência e foi combatida com sangrias e rezas e no fim – como também é próprio das pestes – amainou. Todas as pestes chegam ao seu máximo e recuam. A Terra há séculos não é o centro do universo, o que não impede o prestígio crescente da astrologia. O iluminismo do século dezoito parecia ser o preâmbulo de um futuro racional e prevaleceu o irracionalismo. O Novo Homem de Marx foi visto pela última vez pulando o muro para Berlim Ocidental. E as teses de Freud e Jung que revolucionariam as relações humanas nunca foram aplicadas nas relações que interessam, a do homem com seus instintos e a dos seus instintos com uma sociedade sadia, e na nossa explicação. Foi, como as outras, uma novidade, ou uma curiosidade, que expirou.


Mas também é próprio das pestes serem reincidentes. Cedo ou tarde virá outra perturbar a paz da ignorância de Santo Agostinho. E passar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011



... eu terei de suportar uma ou duas larvas para
conhecer as borboletas, dizem que são lindas! 

                                                             Pequeno Príncipe