segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Encontro

A mulher dirigia apressada. Era a hora do rush, e o trânsito estava caótico como sempre. Sua fisionomia demonstrava a agitação que lhe ia ao íntimo. Mas nenhuma dificuldade, por pior que fosse, a faria desistir.  Era uma questão de honra chegar a tempo. Tim lhe dera poucas opções de horário, mas ela não iria abrir mão desse encontro por nada nesse mundo. Aliás, esse pensamento nem lhe passava pela cabeça. Estava decidida a se entregar a ele, e ver no que ia dar.
Estacionou o carro de qualquer maneira. O celular manifestou-se num tilintar conhecido: era Alfredo. Ela ignorou a chamada do marido, retocou o batom, pegou a bolsa e entrou afogueada no prédio. Foi recebida com sorrisos de cumplicidade pelos funcionários da recepção. Ela evitou olhá-los, e, equilibrando-se nos saltos dos sapatos, deslizou pelas lajotas coloridas, sob o ruído dos  próprios passos, que  ecoavam ao longo do corredor. 

Afinal, a escada. Os degraus de madeira, apesar de gastos, ainda tinham um certo brilho que valorizava o conjunto. Ela os escalou, um a um, como se estivesse desfilando numa passarela: o nariz empinado, a bunda rija, encolhendo a barriga e forçando os peitos para frente. Evitava utilizar o corrimão de madeira polida pelos anos de uso, que, provavelmente, estaria contaminado por vírus e bactérias. Ela tinha fobia por doenças infecto-contagiosas, mas esquecera disso, empolgada com a aventura que vislumbrava entre aquelas paredes. 

Fora Leila, sua colega de escritório, que provocara sua decisão a respeito. O seu ponto fraco era esse: ser provocada. Adorava um desafio. Isso era inato em sua personalidade. Uma vez que decidisse alguma coisa, nunca voltava atrás.

Agora, contudo, sentia-se vulnerável naquele lugar, especialmente sobre aquela escada. Malditos degraus, pensava, olhando as frestas entre os desvãos, por onde olhos famintos acompanhavam seus passos. Ela adivinhava as discussões sobre a cor de seu lingerie, sobre a firmeza de suas coxas e o tamanho de seus glúteos.

Isso é nojento, pensou, enquanto atingia o último patamar e ouvia risos abafados dos rapazes que se espremiam lá embaixo, lutando pelo melhor ângulo de visão. Nos nichos ao longo da parede, garrafões cheios de água, forrados com seixos, ostentavam ramos de uma espécie de vime, fartos de raízes e folhas miúdas.  Era estranha a decoração daquele ambiente. Muito exótica para o seu gosto. Mas Tim adorava coisas incomuns, afinal, ele mesmo era um tipo que poderia ser considerado único.

Enfim, chegou à  sala onde ele estava. A porta fechada. A voz de Frank Sinatra fugia pelas fendas da parede, fluída e convidativa, envolvida em perfumes.  Respirou fundo e com os nós dos dedos, deu algumas pancadas leves e rápidas na madeira. Enquanto esperava que a porta se abrisse, olhou para a escada e murmurou para si mesma:

– Só Tim me faria enfrentar essa escada, e aquela gente lá embaixo. Parecem abutres, lutando pelas sobras de algum festim macabro.

Finalmente ele abriu a porta, saudando-a com os três costumeiros beijinhos estalados nas faces.  Ela entrou com toda a fleuma, sentou na cadeira fechando os olhos. Não precisava falar. Tim sabia o que ela queria. 

Então, deixou-se ficar, enquanto ele tingia as suas madeixas.

Eni Allgayer

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