terça-feira, 6 de setembro de 2011

Do papiro ao hiperlivro

 “Com uma das mãos pendendo ao lado do corpo e a outra apoiando a cabeça, o jovem Aristóteles lê languidamente um pergaminho desdobrado no seu colo, sentado numa cadeira almofadada, com os pés confortavelmente cruzados.”

Assim começa Uma História da Leitura, de Alberto Manguel, cujo primeiro capítulo se chama A Última Página, título bastante pertinente nestes tempos em que se discute o fim do livro de papel, supostamente substituído pelo suporte digital. O jovem Aristóteles que Manguel descreve foi esculpido por Degeorge no século 19 assim, lendo um rolo e não uma tabuleta, porque, naquela época o primeiro já era mais utilizado do que o segundo. Durante séculos, rolos e códices conviveram, próprios a cada tipo de texto e escrita, conformes à portabilidade e mesmo ao tipo de material disponível – madeira, argila, cera, folhas de papiro, couro. Como nos conta Manguel, “desde os primórdios, os leitores exigiram livros em formatos adaptados ao uso que pretendiam lhes dar”. Assim, séculos depois de Aristóteles, romances proibidos eram pequenos e feitos de material inferior, pois eram copiados clandestinamente e circulavam às escondidas.

Quando narra a predileção de Alexandre, o Grande, pela leitura, Manguel conta que o futuro conquistador, discípulo de Aristóteles, raramente deixava de portar um “livro”. Livro? Provavelmente Alexandre leu a Ilíada em 24 rolos de pergaminho, e também cartas e folhetos de papiros, tabuletas de madeira e cera e, talvez, códices. O códice, que já foi manuscrito, de pergaminho (havia exemplares de papiro também), de papel de trapos e, enfim, transformado em livro impresso, tornou-se o suporte preferido, porque o leitor o elegeu para suas leituras, e, assim, por ser mais prático seu uso e também sua produção, hoje, cinco séculos depois, continuamos a ler livros.
Apesar de eleito como o portador do conhecimento e da literatura, o livro não é o melhor suporte, por exemplo, para as notícias, para os documentos que precisam de registro ou os processos de um tribunal – conteúdos que têm sido digitalizados. Já as cartas, transportadas pelos correios em todo o mundo, trocaram mulas, trens, pombas, navios, carros e aviões pela internet – e sobreviverão em seu formato clássico enquanto existirem papel e caneta, e escritores e leitores de cartas, e agências de correio. Já as tabuletas, onde se costumava trazer registrados o alfabeto, os números e o Pai Nosso, sobreviveram até meados do século 20, como suporte onde os estudantes faziam anotações e decoravam a tabuada. As pranchetas que os recenseadores utilizavam foram substituídas por tablets, e engenheiros, fiscais de trânsito, garçons, têm cada vez mais trabalhado com gadgets em mãos, substituindo os velhos bloquinhos em papel. Chamem de remediação, evolução, tragédia – o nome não altera o processo.

A humanidade civilizou-se justamente buscando tudo aquilo que fosse mais prático: mais rápido, mais portátil, mais poderoso, mais prazer. Mais: como a geração Z vê o livro digital. Em vez de carregar uma mochila repleta de volumes pesados de geografia, ciências, matemática, história, Machado de Assis, os estudantes vão carregar um levíssimo tablet – na Coreia, o projeto é substituir todos os livros didáticos em papel, definitivamente, até 2015. No Brasil, o país do futuro, há uma data marcada, o vindouro ano de 2014, em que o governo federal começará a comprar conteúdo digital.

A maioria dos leitores prefere o livro de papel, seja porque sequer conheça ou não disponha de recursos para adquirir um e-reader e uma conexão com a internet para comprar textos, seja porque não saiba hiperler, ou porque creia que o prazer de ler no livro – o toque, o cheiro, a “aura” – seja insubstituível: toda uma geração acostumada, apaixonada às vezes, por esses objetos mágicos, as estantes maravilhosas, as bibliotecas fantásticas. Borges, que tanto imaginou livros e bibliotecas infinitas, talvez não suportasse a ideia de um mundo digital. Não sabemos ao certo quanto tempo essa geração “analógica” vai perdurar, nem podemos afirmar o que acontecerá com o texto – com o conhecimento, a informação e o entretenimento – a partir da adoção dos suportes digitais de leitura, mas duas obviedades surgem a partir das experiências do passado: livro e hiperlivro vão conviver; vencerá o melhor: o melhor suporte para cada forma de texto e leitura.

Também é possível minimamente prever, como fez Kate Wilson na Jornada de Literatura de Passo Fundo, algumas implicações sobre o futuro da leitura: é provável que uma geração próxima não leia mais em livros. Para Alberto Manguel, a exposição editorial de Kate sobre o e-book Cinderela foi uma afronta àqueles que defendem a leitura, porque ela mostrava como, a partir do livro digital, ela se transmuta para outro tipo de interação – que Manguel considerou como “consumo”. Se Manguel exagerou na sua defesa conservadora do livro, como expõe em seu blog Affonso Romano de Sant’anna, testemunha da discussão, Kate Wilson exagerou em dizer que não importa o que as crianças leiam, desde que leiam.

A questão não é a ida do livro para o museu – fazer companhia a rolos e códices –, mas o fato de que esse texto que vemos surgir no suporte digital não é o mesmo do livro. O hiperlivro, portanto, é portador de um texto que se transforma a partir dele, como aconteceu na passagem do rolo para o códice e deste para o livro. Se não fosse assim, nem teríamos lido Cinderela ou Tigre, Tigre como o conhecemos, mas na forma de epopeias em versos alexandrinos! Chegamos até aqui lendo, e lendo inventamos todos esses gadgets, logo, vamos nos adaptar às novas possibilidades de leitura, como sempre fizemos.

Enquanto a escola mantiver o letramento nos moldes tradicionais – lineares, no livro –, assim aprenderemos a ler. Mas a leitura aquém dos muros da escola será outra, eleita por uma nova geração de leitores, os nativos digitais. Há quem não desgoste dessa partição. Haverá, também, um espaço de amoldamento: primeiro, os textos existentes são digitalizados, e lidos linearmente como estamos acostumados a fazer. Depois, com as possibilidades técnicas do suporte digital, chegaremos ao hiperlivro, cujo conteúdo – novo – será hiperlido: palavras, vídeos, sons, a interação com o leitor e com a rede. Certamente cabe a pergunta sobre a formação desse hiperleitor. Séculos atrás, a burguesia em ascensão criou as escolas para formar leitores de livros. Não deixemos a internet tomar conta do negócio!

Ana Cláudia Munari

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