terça-feira, 22 de novembro de 2011

Escolha

Amadurecer

  
Uma questão que pode te ocorrer é se certas descobertas não aconteceram um pouco tarde. Não acredito nessa idéia. As coisas ocorrem no momento que devem para cada um, não dá para adiá-las ou atrasá-las. São processos que acabarão por ocorrer naturalmente. Planejamentos funcionam, mas há fatos que surgem e que podem mudar todas as expectativas sobre um fim, e nós geralmente não estamos preparados; é uma questão de amadurecimento.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Medo e resultado

É um tanto estranho, mas o medo de perder, geralmente é o que nos faz perder. Isto porque na maioria das vezes esse medo já vem acompanhado daquela certeza oculta que não se vai ganhar, ou seja, aquele pensamento; 'acho que não vou conseguir'. Chamo de certeza oculta, pois no momento em que se perdem expectativas sobre vencer, a desmotivação cresce astronomicamente, a ponto de derrubar qualquer pessoa, tornando praticamente certa a derrota. Acreditar sempre será o primeiro requisito para se obter ou manter algo. Temer é abrir espaço para a incerteza e consequentemente para a queda.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Paz interior



Eu apenas gostaria que fosse mais simples perdoar o passado. O peso dos erros cometidos faz sofrer e muitas vezes não conseguimos seguir em frente, pois eles estão lá, impedindo o verdadeiro crescimento e a certeza de que as coisas um dia irão melhorar.
Hoje acredito que felicidade mesmo é quando podemos fazer tudo aquilo que gostamos e ainda conseguir sorrir para o tudo que vivemos, com a tranquilidade de uma consciência intacta.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

E a saudade não apenas machuca...












Saudade: Não podemos ver, nem tocar, mas sentimos e sabemos o quanto é grande e como nos aflige. Considero este o sentimento mais dúbio entre todos, pois mesmo quando estamos angustiados por senti-lo, percebemos uma coisa; que esta é a maneira mais certa de sabermos o quanto amamos alguém.

Por mais que as pessoas acreditem que a saudade traz consigo a tristeza, a certeza de um sentimento oculto é verdadeira.



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tudo se revela.

Um dia todas as máscaras caem.
Isto é certo: pessoas falsas não têm força suficiente para manter tudo para sempre. 
É um processo natural, afinal, ninguém é enganado eternamente.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Saiba que...


Se faço escolhas que parecem estranhas, acredite, eu tenho minhas razões.   
                       Nem sempre a lógica prevalece, temos que ter aquele instinto para sentir coisas que os outros não notam e, que podem nos beneficiar.


sábado, 15 de outubro de 2011

Feliz Dia do Professor!


Gostaria de felicitar todos os professores pelas batalhas travadas todos os dias. Felicitá-los por cumprirem essa missão tão nobre de ensinar, mesmo quando o aprendizado nem é tão desejado assim. Desejo a você professor, mais determinação que aquela que leva para a sala de aula. Mais força que aquela que possuí. Eu sei como é cansativo passar noites onde você avança corrigindo trabalhos, preparando aulas, fazendo projetos ou fechando notas, e muitas vezes tendo que conciliar centenas de alunos com uma família que também espera sua atenção. Sei da menininha que fica querendo ficar ao seu lado enquanto você fecha as notas, que lê os seus livros de português do ensino médio, que dormiu do seu lado, do menino que canta e brinca na sua frente enquanto você corrige um trabalho, apenas para ficar perto de ti. Mas lhe afirmo dedicado, possivelmente cansado, querido professor ou professora, que nada vai melhorar, neste país ou em qualquer lugar sem teu trabalho, sem tua garra. Afinal, uma nação é construída pela educação, e só ela pode mudar destinos onde não há esperança. Podemos acreditar que investir em segurança é melhor, podemos. Entretanto, estaremos apenas podando o problema social. A educação deve ser prioridade, e claro, o professor entra aí. É indignante que alguém que se doe tanto, receba tão pouco em troca. Você que não é professor, pode achar que eles trabalham quarenta horas exatamente iguais a você, mas já viu as pilhas de cadernos, trabalhos que vão junto com eles para casa, do que se abstêm para conseguir entregar tudo nos prazos. Se isso não é o suficiente quero que imagine uma sala com trinta, quarenta mentes velozes que esperam aprender, ou pior imagine quando você tem que convencê las que devem aprender. Também NÃO quero que considere os casos de agressão contra você, que tristemente, podem ocorrer (infelizmente, um quadro que se alastra cada vez mais).  Por isso, que todos nós, possamos valorizar a figura do mestre, afinal, quem não teve um? Que essa imagem tão desmerecida atualmente possa receber um pouco mais de consideração e respeito. Repetindo-me, aos professores, meus parabéns, coragem nessa caminhada.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sorry, but



Eu continuo achando isso às vezes difícil...
O andamento das coisas nem sempre funcionam
como eu queria.

Entretanto, há momentos que tudo fluí com uma facilidade
que ainda me surpreende!
Fico instigada, remoendo sobre os acontecimentos,
sobre nós.

Talvez pela surpresa,
de que poucos conseguem o que temos
em tão pouco tempo.

É como se a sensação de leveza nos embalasse
em um suave mundo particular.

Dois realistas, eu mais sonhadora, temos nossas batalhas, nossas ambições.
Elas nunca foram comuns, e creio que nunca serão.

Se erro contigo, tenha certaza que minha real intenção é a de acertar,
é nem tudo é simples para mim.
Sou novata nesta arte.
A arte de te amar.

sábado, 10 de setembro de 2011

Bye bye era uma vez...

Em um momento qualquer, navegando pela internet descobri um anúncio feito pela Disney no fim do ano passado: por um bom tempo eles não pretendem fazer um filme que envolva princesas. Isso poderia decorrer devido ao fraco desempenho do meigo A Princesa e o Sapo. A animação Enrolados que foi lançado em dezembro, apresenta uma das mais famosas histórias clássicas; a de Rapunzel, mas unida a um humor mais recente da Disney, e essa receita tem alcançado um sucesso bastante relevante.

Entretanto, parece que as coisas não irão mudar; não veremos mais jovens princesas tão cedo. Agora a pergunta é 'por que as jovens com coroas (ou quase) não fazem mais o mesmo sucesso obtido a não muito tempo atrás?' A resposta é simples, o público alvo dessas animações teve os interesses muito modificados nos últimos anos. Meninas, mocinhas, elas não querem mais serem as moças indefesas atrás um cara montado num cavalo branco. Essa nova geração não se identifica mais com elas, mas com atrizes de sucesso, cantoras. Elas querem independência, construir uma carreira. A felicidade feminina sofreu mudanças seculares em poucos anos. Se você duvida pergunte a qualquer menina de doze anos quem ela prefere ser: Cinderela ou Lady Gaga?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Talvez eu caia amanhã, tropece, me rale toda, me machuque.
Sei que tenho muitos desejos. Mas irei conseguir, alcançarei meus sonhos. Não irei desistir de mais nada, empunharei a mim mesma e vou caminhar até o fim, custe o que for necessário. A minha fé não será mais abalada. Ela que acredita que as coisas vão dar certo, essa fé em mim mesma. 

 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Do papiro ao hiperlivro

 “Com uma das mãos pendendo ao lado do corpo e a outra apoiando a cabeça, o jovem Aristóteles lê languidamente um pergaminho desdobrado no seu colo, sentado numa cadeira almofadada, com os pés confortavelmente cruzados.”

Assim começa Uma História da Leitura, de Alberto Manguel, cujo primeiro capítulo se chama A Última Página, título bastante pertinente nestes tempos em que se discute o fim do livro de papel, supostamente substituído pelo suporte digital. O jovem Aristóteles que Manguel descreve foi esculpido por Degeorge no século 19 assim, lendo um rolo e não uma tabuleta, porque, naquela época o primeiro já era mais utilizado do que o segundo. Durante séculos, rolos e códices conviveram, próprios a cada tipo de texto e escrita, conformes à portabilidade e mesmo ao tipo de material disponível – madeira, argila, cera, folhas de papiro, couro. Como nos conta Manguel, “desde os primórdios, os leitores exigiram livros em formatos adaptados ao uso que pretendiam lhes dar”. Assim, séculos depois de Aristóteles, romances proibidos eram pequenos e feitos de material inferior, pois eram copiados clandestinamente e circulavam às escondidas.

Quando narra a predileção de Alexandre, o Grande, pela leitura, Manguel conta que o futuro conquistador, discípulo de Aristóteles, raramente deixava de portar um “livro”. Livro? Provavelmente Alexandre leu a Ilíada em 24 rolos de pergaminho, e também cartas e folhetos de papiros, tabuletas de madeira e cera e, talvez, códices. O códice, que já foi manuscrito, de pergaminho (havia exemplares de papiro também), de papel de trapos e, enfim, transformado em livro impresso, tornou-se o suporte preferido, porque o leitor o elegeu para suas leituras, e, assim, por ser mais prático seu uso e também sua produção, hoje, cinco séculos depois, continuamos a ler livros.
Apesar de eleito como o portador do conhecimento e da literatura, o livro não é o melhor suporte, por exemplo, para as notícias, para os documentos que precisam de registro ou os processos de um tribunal – conteúdos que têm sido digitalizados. Já as cartas, transportadas pelos correios em todo o mundo, trocaram mulas, trens, pombas, navios, carros e aviões pela internet – e sobreviverão em seu formato clássico enquanto existirem papel e caneta, e escritores e leitores de cartas, e agências de correio. Já as tabuletas, onde se costumava trazer registrados o alfabeto, os números e o Pai Nosso, sobreviveram até meados do século 20, como suporte onde os estudantes faziam anotações e decoravam a tabuada. As pranchetas que os recenseadores utilizavam foram substituídas por tablets, e engenheiros, fiscais de trânsito, garçons, têm cada vez mais trabalhado com gadgets em mãos, substituindo os velhos bloquinhos em papel. Chamem de remediação, evolução, tragédia – o nome não altera o processo.

A humanidade civilizou-se justamente buscando tudo aquilo que fosse mais prático: mais rápido, mais portátil, mais poderoso, mais prazer. Mais: como a geração Z vê o livro digital. Em vez de carregar uma mochila repleta de volumes pesados de geografia, ciências, matemática, história, Machado de Assis, os estudantes vão carregar um levíssimo tablet – na Coreia, o projeto é substituir todos os livros didáticos em papel, definitivamente, até 2015. No Brasil, o país do futuro, há uma data marcada, o vindouro ano de 2014, em que o governo federal começará a comprar conteúdo digital.

A maioria dos leitores prefere o livro de papel, seja porque sequer conheça ou não disponha de recursos para adquirir um e-reader e uma conexão com a internet para comprar textos, seja porque não saiba hiperler, ou porque creia que o prazer de ler no livro – o toque, o cheiro, a “aura” – seja insubstituível: toda uma geração acostumada, apaixonada às vezes, por esses objetos mágicos, as estantes maravilhosas, as bibliotecas fantásticas. Borges, que tanto imaginou livros e bibliotecas infinitas, talvez não suportasse a ideia de um mundo digital. Não sabemos ao certo quanto tempo essa geração “analógica” vai perdurar, nem podemos afirmar o que acontecerá com o texto – com o conhecimento, a informação e o entretenimento – a partir da adoção dos suportes digitais de leitura, mas duas obviedades surgem a partir das experiências do passado: livro e hiperlivro vão conviver; vencerá o melhor: o melhor suporte para cada forma de texto e leitura.

Também é possível minimamente prever, como fez Kate Wilson na Jornada de Literatura de Passo Fundo, algumas implicações sobre o futuro da leitura: é provável que uma geração próxima não leia mais em livros. Para Alberto Manguel, a exposição editorial de Kate sobre o e-book Cinderela foi uma afronta àqueles que defendem a leitura, porque ela mostrava como, a partir do livro digital, ela se transmuta para outro tipo de interação – que Manguel considerou como “consumo”. Se Manguel exagerou na sua defesa conservadora do livro, como expõe em seu blog Affonso Romano de Sant’anna, testemunha da discussão, Kate Wilson exagerou em dizer que não importa o que as crianças leiam, desde que leiam.

A questão não é a ida do livro para o museu – fazer companhia a rolos e códices –, mas o fato de que esse texto que vemos surgir no suporte digital não é o mesmo do livro. O hiperlivro, portanto, é portador de um texto que se transforma a partir dele, como aconteceu na passagem do rolo para o códice e deste para o livro. Se não fosse assim, nem teríamos lido Cinderela ou Tigre, Tigre como o conhecemos, mas na forma de epopeias em versos alexandrinos! Chegamos até aqui lendo, e lendo inventamos todos esses gadgets, logo, vamos nos adaptar às novas possibilidades de leitura, como sempre fizemos.

Enquanto a escola mantiver o letramento nos moldes tradicionais – lineares, no livro –, assim aprenderemos a ler. Mas a leitura aquém dos muros da escola será outra, eleita por uma nova geração de leitores, os nativos digitais. Há quem não desgoste dessa partição. Haverá, também, um espaço de amoldamento: primeiro, os textos existentes são digitalizados, e lidos linearmente como estamos acostumados a fazer. Depois, com as possibilidades técnicas do suporte digital, chegaremos ao hiperlivro, cujo conteúdo – novo – será hiperlido: palavras, vídeos, sons, a interação com o leitor e com a rede. Certamente cabe a pergunta sobre a formação desse hiperleitor. Séculos atrás, a burguesia em ascensão criou as escolas para formar leitores de livros. Não deixemos a internet tomar conta do negócio!

Ana Cláudia Munari

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A peste

Dizem que quando os dois estavam chegando a Nova York, na amurada do navio, Freud virou-se para Jung e perguntou:

– Será que eles sabem que nós estamos trazendo a peste?

Não sei se a história, que li num texto do Stephen Greenblatt publicado recentemente na revista The New Yorker, é verdadeira. Nem sei se Freud e Jung estiveram juntos em Nova York algum dia. Mas o que Freud pretenderia dizer com “a peste” é fácil de entender. Era tudo que os dois estavam explorando em matéria de subconsciente, inconsciente coletivo, sexualidade precoce – enfim, a revolução no pensamento humano que na Europa já se alastrava, e era combatida, como uma epidemia. Os agentes alfandegários não teriam identificado o perigo que os dois recém-chegados representavam para as mentes da América, deixando-os passar para contagiá-las.

Todo desafio ao pensamento convencional e a crenças arraigadas é uma espécie de praga solapadora, uma ameaça à normalidade e à saúde públicas. Santo Agostinho dizia que a curiosidade era uma doença. Os que procuravam explicações para o universo e a vida além dos dogmas da Igreja ou da ciência tradicional eram portadores do vírus da discórdia, a serem espantados como se espanta qualquer praga, com barulho e fogo. As ideias de Freud e de Jung divergiram – Jung acabou derivando para um quase misticismo, literariamente mais rico mas menos consequente do que o que pensava Freud – mas as descobertas dos dois significaram uma reviravolta no auto-conceito da humanidade comparável ao que significou o heliocentrismo de Copérnico e as sacadas do Galileu. O homem não só não era o centro do universo conhecido como carregava dentro de si um universo desconhecido, que mal controlava. Agostinho tinha razão, a curiosidade debilitava o homem. A partir de Copérnico a curiosidade só levara o homem a ir desvendando, pouco a pouco, sua própria precariedade, cada vez mais longe de Deus.


Marx, outro pestilento, tinha proposto o determinismo histórico e a luta de classes como eventuais formadores do Novo Homem, livre da superstição religiosa e de outras tiranias. Suas ideias, e a reação às suas ideias, convulsionaram o mundo. Esta peste se disseminou com violência e foi combatida com sangrias e rezas e no fim – como também é próprio das pestes – amainou. Todas as pestes chegam ao seu máximo e recuam. A Terra há séculos não é o centro do universo, o que não impede o prestígio crescente da astrologia. O iluminismo do século dezoito parecia ser o preâmbulo de um futuro racional e prevaleceu o irracionalismo. O Novo Homem de Marx foi visto pela última vez pulando o muro para Berlim Ocidental. E as teses de Freud e Jung que revolucionariam as relações humanas nunca foram aplicadas nas relações que interessam, a do homem com seus instintos e a dos seus instintos com uma sociedade sadia, e na nossa explicação. Foi, como as outras, uma novidade, ou uma curiosidade, que expirou.


Mas também é próprio das pestes serem reincidentes. Cedo ou tarde virá outra perturbar a paz da ignorância de Santo Agostinho. E passar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011



... eu terei de suportar uma ou duas larvas para
conhecer as borboletas, dizem que são lindas! 

                                                             Pequeno Príncipe 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

“L’essentiel est invisible pour les yeux.”

Essa citação é do escritor Francês Antoine de Saint-Exupéry. O essencial é invisível aos olhos. É uma idéia bela, verdadeira, mas... Será que realmente nós pensamos assim? Estamos tão ocupados em torno de uma rotina, que deixamos de ver o que de fato é importante. Vemos as paisagens, os hábitos, vemos o que nos interessa. Entretanto ficamos sem se ater aos detalhes que seriam tão imprescindíveis na nossa existência. Procure prestar mais atenção naquela pessoa que passa por você quase todos os dias, observe, dialogue, não julgue ou analise ninguém por conceitos que você estabeleceu sem nenhum fundamento. Analise bem até aquela com quem você divide as contas. Será que conhecem a totalidade do outro? Ou seria mais um detalhe a que você não se deu conta do quão importante seria. Remodele seus conceitos, não os preestabeleça. E note a diferença que isso pode fazer.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Encontro

A mulher dirigia apressada. Era a hora do rush, e o trânsito estava caótico como sempre. Sua fisionomia demonstrava a agitação que lhe ia ao íntimo. Mas nenhuma dificuldade, por pior que fosse, a faria desistir.  Era uma questão de honra chegar a tempo. Tim lhe dera poucas opções de horário, mas ela não iria abrir mão desse encontro por nada nesse mundo. Aliás, esse pensamento nem lhe passava pela cabeça. Estava decidida a se entregar a ele, e ver no que ia dar.
Estacionou o carro de qualquer maneira. O celular manifestou-se num tilintar conhecido: era Alfredo. Ela ignorou a chamada do marido, retocou o batom, pegou a bolsa e entrou afogueada no prédio. Foi recebida com sorrisos de cumplicidade pelos funcionários da recepção. Ela evitou olhá-los, e, equilibrando-se nos saltos dos sapatos, deslizou pelas lajotas coloridas, sob o ruído dos  próprios passos, que  ecoavam ao longo do corredor. 

Afinal, a escada. Os degraus de madeira, apesar de gastos, ainda tinham um certo brilho que valorizava o conjunto. Ela os escalou, um a um, como se estivesse desfilando numa passarela: o nariz empinado, a bunda rija, encolhendo a barriga e forçando os peitos para frente. Evitava utilizar o corrimão de madeira polida pelos anos de uso, que, provavelmente, estaria contaminado por vírus e bactérias. Ela tinha fobia por doenças infecto-contagiosas, mas esquecera disso, empolgada com a aventura que vislumbrava entre aquelas paredes. 

Fora Leila, sua colega de escritório, que provocara sua decisão a respeito. O seu ponto fraco era esse: ser provocada. Adorava um desafio. Isso era inato em sua personalidade. Uma vez que decidisse alguma coisa, nunca voltava atrás.

Agora, contudo, sentia-se vulnerável naquele lugar, especialmente sobre aquela escada. Malditos degraus, pensava, olhando as frestas entre os desvãos, por onde olhos famintos acompanhavam seus passos. Ela adivinhava as discussões sobre a cor de seu lingerie, sobre a firmeza de suas coxas e o tamanho de seus glúteos.

Isso é nojento, pensou, enquanto atingia o último patamar e ouvia risos abafados dos rapazes que se espremiam lá embaixo, lutando pelo melhor ângulo de visão. Nos nichos ao longo da parede, garrafões cheios de água, forrados com seixos, ostentavam ramos de uma espécie de vime, fartos de raízes e folhas miúdas.  Era estranha a decoração daquele ambiente. Muito exótica para o seu gosto. Mas Tim adorava coisas incomuns, afinal, ele mesmo era um tipo que poderia ser considerado único.

Enfim, chegou à  sala onde ele estava. A porta fechada. A voz de Frank Sinatra fugia pelas fendas da parede, fluída e convidativa, envolvida em perfumes.  Respirou fundo e com os nós dos dedos, deu algumas pancadas leves e rápidas na madeira. Enquanto esperava que a porta se abrisse, olhou para a escada e murmurou para si mesma:

– Só Tim me faria enfrentar essa escada, e aquela gente lá embaixo. Parecem abutres, lutando pelas sobras de algum festim macabro.

Finalmente ele abriu a porta, saudando-a com os três costumeiros beijinhos estalados nas faces.  Ela entrou com toda a fleuma, sentou na cadeira fechando os olhos. Não precisava falar. Tim sabia o que ela queria. 

Então, deixou-se ficar, enquanto ele tingia as suas madeixas.

Eni Allgayer

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Carrego seu coração



Eu Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Eu nunca estou sem ele
Onde quer que eu vá, você vai, minha querida;
e o que quer que eu faça sozinho, eu faço por você.

Eu não temo o destino
Porque você é o meu destino, minha doce.
Eu não quero o mundo por mais belo que seja
Porque você é meu mundo, minha verdade.
Este é o maior dos segredos que ninguém sabe.

Você é a raiz da raiz, e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;
que cresce mais alta do que a alma pode esperar
ou a mente pode esconder.
Este é o milagre que distancia as estrelas

Eu Carrego seu coração
carrego no meu coração.


E. E. Cummings

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Unwritten


I break tradition, sometimes my tries, are outside the lines
We've been conditioned to not make mistakes, but I can't live that way
Let the sun illuminate the words that you could not find
Reaching for something in the distance
So close you can almost taste it
Release your inhibitions

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Chapeuzinho Vermelho

"Era uma vez uma rapariga chamada Chapeuzinho Vermelho, que vivia com a mãe perto de um grande bosque. Um dia a mãe mandou-a levar um cesto de fruta fresca e água mineral a casa da avó - não porque tal fosse trabalho de mulher, claro, mas porque se tratava de um ato generoso que contribuía para fomentar um sentimento de comunidade. Aliás, a avó da rapariga não estava doente, encontrando-se, pelo contrário, de perfeita saúde física e mental, inteiramente capaz de cuidar de si, como adulta madura que era.

Vai daí, Chapeuzinho Vermelho fez-se ao caminho pelo meio do bosque com o cesto enfiado no braço. Muitos achavam aquele bosque um lugar perigoso e de mau presságio, pelo que nunca lá punham os pés. Chapeuzinho Vermelho tinha, porém, tal confiança na sua sexualidade a desabrochar que não se deixava intimidar por tão óbvia imagética freudiana.

No caminho para casa da avozinha, Chapeuzinho Vermelho encontrou um lobo, que lhe perguntou o que levava no cesto e a quem respondeu:

- São uns alimentos saudáveis para a minha avó, que é evidentemente capaz de tomar conta de si própria, como adulta madura que é.

- Sabes, minha querida, não é nada seguro para uma menina como tu andar sozinha pelo meio destes bosques! - retorquiu o lobo.

- Considero extremamente ofensiva a tua observação sexista - disse o Chapeuzinho Vermelho - , mas vou ignorá-la tendo em conta a tua tradicional condição de pária da sociedade, cujo trauma te levou a criar uma mundividência própria, perfeitamente válida. E agora, se me dás licença, tenho de prosseguir o meu caminho.

Chapeuzinho Vermelho continuou a andar, sempre pelo carreiro principal.No entanto, o lobo, cuja condição de excluído da sociedade o isentara da obediência escravizante ao raciocínio linear do tipo ocidental, conhecia um atalho para a casa da avozinha. Irrompeu pela casa dentro e comeu a senhora, procedimento inteiramento adequado a um carnívoro, como era o seu caso. A seguir, liberto das noções rígidas e tradicionalistas quanto ao que era masculino ou feminino, vestiu a camisa de dormir da avozinha e enfiou-se na sua cama.

Chapeuzinho Vermelho entrou na cabana e exclamou:

- Avozinha, trouxe-lhe umas coisinhas para comer, sem gordura nem sal, em homenagem ao seu papel de matriarca sábia e criadora.

Da cama, o lobo respondeu, em voz sumida:

- Chega-te cá, netinha, para eu te ver.

Chapeuzinho Vermelho acrescentou:

- Ah, é verdade! Já me esquecia de que a avozinha é opticamente tão limitada como um morcego. Mas avozinha, que grandes olhos tem!

- Já muito viram e muito perdoaram!

- E que grande nariz tem (em termos relativos, claro, e, de qualquer modo, atraente, à sua maneira).

- Já muito cheirou e muito perdoou, minha querida!

- E que grandes dentes tem!

Aí o lobo disse:

- Sinto-me muito feliz por ser quem sou. - E saltou para fora da cama, filando-a com as suas garras, pronto a devorá-la.

Chapeuzinho Vermelho gritou, não assustada coma aparente tendência do lobo para o travestismo, mas horrorizada com a invasão do seu espaço pessoal.

Os seus gritos foram ouvidos por um lenhador (ou técnoco de combustível lenhoso, como preferia que lhe chamassem) que passava ali perto. Quando irrompeu pela cabana, logo se apecebeu da confusão e tentou intervir. Mal ergueu no ar o seu machado, Chapeuzinho Vermelho e o lobo pararam de brigar.

- Que pensa o cavalheiro que está a fazer? - perguntou Chapeuzinho Vermelho. O lenhador arregalou os olhos de espanto e fez menção de responder, mas nem uma palavra lhe ocorreu. - Entrar aqui como um Homem de Neanderthal , deixando que a sua arma pense por si !- exclamou ela. - Machista! Como se atreve a presumir que mulheres e lobos sejam incapazes de resolver os seus problemas sem a ajuda de um homem?

Ao ouvir o discurso arrebatado de Chapeuzinho Vermelho, a avozinha saltou de dentro da boca do lobo e, agarrando no machado do lenhador, cortou-lhe a cabeça. Passado o mau bocado, Chapeuzinho Vermelho, a avozinha e o lobo sentiram-se unidos por uma certa comunhão de propósitos. Decidiram, por isso fundar uma família alternativa baseada no respeito mútuo e na cooperação e viveram juntos e felizes no bosque para sempre."
por James Finn Garner